Dr. Márcio GesterEndocrinologista · CRM-PA 14727 ← Início
Ilustração editorial sóbria em tons de azul-marinho comparando as formas do progestagênio na reposição hormonal: uma cápsula, um óvulo vaginal, um adesivo e um dispositivo intrauterino em formato de T, dispostos ao redor do contorno estilizado de um útero protegido por uma linha contínua. Sem pessoas e sem embalagens reais de medicamento.

Progesterona na reposição hormonal: micronizada, sintética ou DIU

Em resumo: ao lado do estrogênio, o progestagênio entra para impedir que o revestimento interno do útero cresça sem controle, e não para aliviar sintoma. Sem ele, quase 3 em cada 10 mulheres desenvolveram esse crescimento em três anos, contra menos de 1 em 100 entre as que receberam tratamento sem efeito 1. Sozinha e em dose maior, porém, a progesterona micronizada também reduz fogacho, e isso abre uma opção para quem não pode usar estrogênio 14. E qual progestagênio se usa muda o risco de câncer de mama, enquanto a via do estrogênio não muda 3: na coorte francesa a progesterona micronizada não se distinguiu de quem nunca usou reposição, e os sintéticos reunidos apareceram com risco cerca de 70% maior. A proteção depende de dose e de dias de uso, com 12 dias por mês como piso 2,9, e o que passa pela pele em creme não protege 2,5. O DIU de levonorgestrel protege o útero e tem essa indicação aprovada em bula no Brasil, e é nele que as leituras sobre mama divergem 9,10,17.

Por Dr. Márcio Gester, Endocrinologista, CRM-PA 14727, RQE 9424. Atualizado em 13/08/2026.

A reposição hormonal de quem tem útero tem duas decisões, e elas costumam ser tratadas como uma só. A primeira é o estrogênio: qual e por qual via. A segunda é o progestagênio, que é o nome do grupo que reúne a progesterona idêntica à humana e as versões sintéticas dela. Essa segunda decisão quase não aparece na conversa, e ela é a que mexe no risco de câncer de mama.

Este texto trata dessa segunda metade. Ele parte do ponto em que a indicação de repor já está estabelecida e o útero está no lugar.

A progesterona está ali para proteger o útero

Estrogênio sozinho, em quem tem útero, estimula o crescimento do endométrio, que é o revestimento interno do órgão. O tamanho desse efeito ficou claro num ensaio de três anos que sorteou mulheres para cinco esquemas diferentes e olhou o tecido por biópsia. Com estrogênio isolado, 27,7% desenvolveram hiperplasia simples, que é o nome desse crescimento excessivo do revestimento, contra 0,8% no grupo que recebeu tratamento sem efeito; a forma mais preocupante, com células já alteradas no microscópio, apareceu em 11,8% contra nenhuma. Os três esquemas que incluíram um progestagênio, inclusive o que usou 200 mg de progesterona micronizada por 12 dias do ciclo, ficaram iguais ao grupo sem tratamento 1.

O papel da progesterona ao lado do estrogênio não é melhorar o fogacho, e sim cancelar um risco que o estrogênio cria. Ela também alivia fogacho por conta própria, numa dose maior, e eu trato disso mais adiante; mas não é por esse motivo que ela entra na receita combinada. Isso muda a forma de pensar a dose de proteção: o que se busca aqui é a proteção comprovada, não a menor quantidade tolerável. A revisão sistemática que reuniu os estudos de proteção endometrial com progesterona micronizada chegou a números específicos: por via oral, 200 mg por dia durante 12 a 14 dias por mês protegem por até cinco anos; por via vaginal, o esquema estudado tem pelo menos 10 dias por mês, em doses próprias, e cobre três a cinco anos 2. A bula brasileira traz também o esquema contínuo, de 100 mg toda noite por 25 a 30 dias do mês, em que a maioria não apresenta sangramento 16. Repare que o piso muda com a via, mas existe sempre: nenhum esquema com proteção demonstrada fica abaixo de dez dias por mês, e no uso oral são doze. Abaixo disso o que falta é justamente a garantia que esses estudos dão 2,9.

Uma indicação que quase ninguém espera: endometriose com focos remanescentes depois da retirada do útero. Sem útero, a regra geral é estrogênio isolado, mas os focos de endometriose que sobraram continuam respondendo ao estrogênio, e o risco que se teme ali é o de recidiva e o de transformação maligna. Os dados não são conclusivos, e é justamente por isso que as recomendações atuais tendem a preferir a fórmula combinada, ou seja, com progestagênio, à terapia só com estrogênio nessas mulheres 11. Na prática, é a única situação em que eu prescrevo progestagênio para quem não tem mais útero, e a conversa é sobre risco de recidiva, não sobre endométrio.

Micronizada ou sintética: onde o risco de mama muda

A coorte francesa que acompanhou mais de 80 mil mulheres na pós-menopausa, com 2.354 casos de câncer de mama ao longo de cerca de oito anos, fez a comparação que interessa. Com estrogênio isolado, o risco foi 29% maior que o de quem nunca usou. Combinado com progesterona micronizada, ficou igual ao de quem nunca usou. Com didrogesterona, 16% maior. Com os outros progestagênios sintéticos reunidos, 69% maior 3.

O mesmo estudo traz o achado que separa as duas metades deste texto: a via do estrogênio, oral ou pela pele, não alterou o risco de câncer de mama 3. São dois eixos independentes. A via decide trombose. O progestagênio decide mama.

O levantamento britânico, com quase 99 mil casos de câncer de mama, chegou por outro caminho a uma conclusão compatível. Entre quem usava recentemente e havia cinco anos ou mais, o risco foi maior com noretisterona, 88% acima de quem nunca usou, e menor com didrogesterona, 24% acima. Esse banco comparou progestagênios sintéticos entre si e não trouxe a progesterona micronizada 4. Em números absolutos, que assustam menos e informam mais: para cada 10 mil mulheres acompanhadas por um ano, o estrogênio isolado correspondeu a 3 a 8 casos adicionais, e a combinação com progestagênio a 9 a 36, variando com a idade 4. A diretriz brasileira resume o tamanho disso como menos de um caso adicional por mil mulheres por ano de uso, com recomendação forte e certeza alta 8.

Nenhum desses estudos sorteou as mulheres entre os progestagênios, então nada disso é prova de causa. Mas quando a coorte francesa e o levantamento britânico, com métodos e países diferentes, apontam na mesma direção, e ela é a favor da molécula idêntica à humana, a progesterona micronizada passa a ser a minha escolha inicial, e a conversa vira sobre sangramento e tolerância, não sobre risco.

Cada forma tem uma vantagem própria e um preço próprio

A revisão que apelidou os progestagênios de espada de dois gumes organiza bem o campo. Ela cobre noretisterona, medroxiprogesterona, didrogesterona, progesterona micronizada, levonorgestrel, drospirenona e trimegestona, e estabelece três regras que valem para todas: podem ser usadas por via oral ou vaginal, a noretisterona também em adesivo e o levonorgestrel também dentro do útero; no esquema sequencial, a exposição precisa durar pelo menos 12 dias por mês, e intervalos maiores entre os ciclos não são seguros; e o uso contínuo, seja por via oral, pela pele ou dentro do útero, é o que protege melhor 9.

FormaO que tem a favorO que tem contra
Progesterona micronizada em cápsulaMolécula idêntica à humana. Não se distinguiu de quem nunca usou no risco de mama 3. É o progestagênio que menos apaga o ganho de colesterol do estrogênio oral 7. Ajuda quem demora a pegar no sono 6 e, em dose maior, alivia fogacho por conta própria 14Dá sonolência e sensação de vertigem, então precisa ser à noite 16. A proteção está documentada por até cinco anos, e além disso o dado acaba 2
Progesterona micronizada por via vaginalMesma molécula, com muito menos sonolência, porque não passa pelo fígado da mesma maneira. A bula brasileira autoriza substituir a via oral por ela em todas as indicações, exatamente nos casos de sonolência ou vertigem 16A evidência de proteção do endométrio por essa via é mais escassa e depende do esquema usado 2. Aplicação diária incomoda parte das mulheres
Didrogesterona em comprimidoSintética, mas com o menor sinal de mama entre as sintéticas nos dois bancos 3,4, e apontada entre as mais seguras nesse quesito 9Ainda é uma molécula diferente da humana, e o sinal de mama é menor que o das outras sintéticas sem ser ausente: 16% acima na coorte francesa 3 e 24% acima no banco britânico 4
Outras sintéticas em comprimido (noretisterona, medroxiprogesterona, drospirenona)Muito estudadas, dose previsível, e existem em comprimido único junto com o estrogênio, o que simplifica a rotinaMaior sinal de mama: os sintéticos reunidos ficaram 69% acima na coorte francesa 3 e a noretisterona 88% acima no banco britânico 4
Noretisterona em adesivo (junto com o estradiol)Única forma de manter as duas partes da reposição pela pele. Uso contínuo pela pele protege bem o endométrio 9É sintética, e é justamente a molécula de maior sinal de mama 4. Esse número vem do uso oral (comprimido), não do adesivo
DIU de levonorgestrelProteção contínua sem depender de lembrar de tomar 9. É indicação aprovada em bula no Brasil, por até cinco anos 17. Resolve junto o sangramento intenso e a contracepção da transiçãoA colocação é um procedimento. A própria bula diz que ele não é a primeira escolha depois da menopausa quando o útero já está atrofiado, e que nessa indicação o risco de mama não pode ser confirmado nem descartado 17
Creme ou gel de progesterona manipuladoNada, para esta finalidadeNão protege o endométrio 2,5, e não é recomendado pela diretriz brasileira 8

As colunas mudam de peso conforme a pessoa: quem demora a pegar no sono lê a linha da cápsula de um jeito, e quem convive com sangramento intenso lê a linha do DIU de outro.

O DIU de levonorgestrel, e por que as fontes discordam sobre ele

O dispositivo merece seção própria, porque é o único ponto deste texto em que as fontes divergem, e esconder isso não ajudaria ninguém. A revisão que organizou o campo coloca o dispositivo com levonorgestrel entre as opções possivelmente mais seguras para a mama, ao lado da didrogesterona e da progesterona micronizada 9. Na direção oposta, a revisão sistemática que reuniu sete estudos de usuárias desse dispositivo encontrou, comparando quem usava com quem não usava, 16% mais câncer de mama no conjunto das mulheres e 52% mais entre as de 50 anos ou mais 10. Duas coisas explicam por que as duas leituras coexistem sem que uma seja mentira: os estudos reunidos incluíam mulheres que usam o dispositivo para contracepção e para sangramento intenso, não apenas para proteger o endométrio na reposição, e os resultados variaram muito entre eles, a ponto de os próprios autores dizerem que fatores de confusão podem responder por parte do efeito encontrado.

A voz mais honesta nessa discussão é a da própria bula, que não escolhe lado. Ela registra que alguns estudos sugeriram risco de mama ligeiramente aumentado com o DIU hormonal e outros não, e conclui que, por serem limitados os dados na indicação específica de proteger o endométrio durante a reposição, o risco de câncer de mama nessa situação não pode ser confirmado nem descartado 17. Quando o próprio fabricante escreve isso na bula, quem afirma qualquer uma das duas pontas como se fosse certeza está indo além do que se sabe.

Na prática, isso me leva a uma conduta simples. Quando já existe outro motivo forte para o dispositivo, como sangramento intenso ou necessidade de contracepção na transição, ele resolve dois problemas de uma vez e a conta fecha. Quando o único objetivo é proteger o útero, prefiro começar pela progesterona micronizada, que é a mais fácil de suspender se a decisão mudar ou se algum exame mudar de figura.

Creme e adesivo de progesterona não protegem o útero

A mesma revisão sistemática que estabeleceu as doses orais é explícita na terceira conclusão: progesterona micronizada por via transdérmica não protege o endométrio 2. Uma revisão dedicada às vias de progesterona diz o mesmo com outras palavras: não há evidência científica suficiente para a aplicação transdérmica, e essas preparações não devem ser usadas para se opor ao efeito do estrogênio no endométrio 5. O motivo é de absorção: o que passa pela pele não alcança, no sangue e no tecido, a concentração necessária para frear o estímulo do estrogênio.

Progestagênio em adesivo, por outro lado, existe. A tabela de vias da diretriz brasileira mostra qual: por via transdérmica o disponível é o acetato de noretisterona, de 140 a 170 mcg por dia, que é sintético, e a progesterona micronizada aparece apenas nas vias oral e vaginal 8. Quem quer adesivo com progestagênio está escolhendo, por consequência, um progestagênio sintético, e a noretisterona é justamente a que teve o sinal mais alto de mama nos estudos acima. Uma ressalva honesta: aqueles números vêm do uso oral (comprimido), e não do adesivo, então o que se transporta aqui é a molécula, não a medida.

A diretriz também é direta sobre o que fica de fora: hormônios manipulados, os chamados bioidênticos de farmácia de manipulação, e implantes hormonais não são recomendados, por falta de evidência científica 8. O erro que eu costumo corrigir não é a mulher que resiste à reposição, é a que fez uma reposição que ninguém consegue conferir: creme sem dose definida, implante sem controle de liberação, e útero sem proteção nenhuma.

A progesterona também mexe no fogacho e no sono

Até aqui este texto tratou o progestagênio como a peça que protege o útero, que é o papel dele dentro de uma receita combinada. Mas a progesterona micronizada tem efeito próprio sobre o sintoma que leva a mulher ao consultório, e isso costuma ficar de fora da conversa.

Num ensaio randomizado de doze semanas, 133 mulheres saudáveis na pós-menopausa foram sorteadas para progesterona micronizada 300 mg à noite ou para um comprimido sem efeito. Partindo de uma pontuação média de sintomas de 17, o grupo da progesterona caiu 10 pontos e o grupo sem tratamento caiu 4,4 14. Vale reparar nos dois números, e não só no primeiro: fogacho melhora muito mesmo sem remédio nenhum, e o que se pode creditar ao hormônio é a diferença entre os grupos, de cerca de 4 pontos, que foi consistente o bastante para não ser atribuída ao acaso. Quando a mulher parou de tomar, os sintomas não voltaram com força, o que não é regra na reposição 13.

Três ressalvas antes que isso vire promessa. A dose que funcionou para o fogacho, 300 mg, é maior que a faixa de 100 a 200 mg por dia registrada em bula no Brasil para a reposição, então esse uso aqui é fora de bula 16. As participantes eram mulheres saudáveis, sem fatores de risco cardiovascular e no começo da pós-menopausa, e 9 em cada 100 abandonaram o estudo por efeitos indesejados 14. E a revisão que defende essa indicação reconhece que ela se apoia nesse único ensaio de três meses 13. Na prática, isso não muda a razão de existir do progestagênio numa receita combinada, que continua sendo proteger o endométrio; muda quem mais pode se beneficiar dele, porque abre uma conversa real para a mulher que não pode ou não quer usar estrogênio.

Quem toma progesterona micronizada à noite costuma sentir sono. A bula registra sonolência e sensação de vertigem depois da absorção oral, e é por isso que o esquema é escrito para tomar antes de dormir 16. A explicação é elegante: ao passar pelo fígado, a progesterona gera metabólitos que agem no mesmo sistema de freio do cérebro em que agem os calmantes, e isso só acontece de forma relevante quando ela é engolida.

A reunião de ensaios randomizados sobre isso é mais modesta do que a promessa que circula. Foram 9 ensaios com 388 participantes ao todo, 8 deles em mulheres na pós-menopausa, e a análise combinada de 4 mostrou benefício na latência do sono, que é o tempo para pegar no sono, mas não no tempo total dormido; os resultados variaram bastante entre os estudos 6. Então a leitura honesta é esta: a progesterona oral à noite pode ajudar quem demora a dormir, e não é um remédio para insônia. A primeira passagem, que no estradiol produz o efeito indesejado sobre a coagulação, aqui é o que produz o efeito desejado.

O que diz a diretriz brasileira sobre o progestagênio

A Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa de 2024 é um trabalho conjunto da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), da Associação Brasileira de Climatério (SOBRAC) e da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), e ela dá três respostas que importam aqui 8:

Vale ler a primeira e a terceira juntas. O risco da reposição feita com produto registrado é pequeno e está medido; o de uma reposição manipulada não está medido, e a diferença entre as duas frases é o que separa uma decisão informada de uma aposta. Guardo uma ressalva sobre a terceira, que trato adiante em "Como eu escolho": manipular tem um lugar legítimo e estreito, e ele depende de a via e a molécula serem as que funcionam. O que nunca se resolve na farmácia é a via errada.

Como eu escolho, na prática

Começo pela progesterona micronizada por via oral, à noite, e a decisão seguinte é entre o esquema contínuo e o sequencial. Contínuo, de 100 mg todas as noites, tende a deixar a mulher sem sangramento, que é o que a maioria quer depois da menopausa estabelecida 16. Sequencial, com 200 mg por 12 a 14 dias do mês, produz sangramento programado e é mais natural para quem ainda está na transição 2. Na via oral, ninguém deve espaçar o progestagênio para menos de 12 dias por mês: isso não equivale a uma dose menor, e sim a ficar sem a proteção que os estudos mediram 9.

Quando aparece sangramento no esquema contínuo de 100 mg, a minha conduta é aumentar para 200 mg por dia, e não reduzir nem espaçar. Parece contraintuitivo, porque o instinto diante de sangramento é tirar hormônio, mas quem sangra ali costuma estar com proteção insuficiente para o estímulo do estrogênio que está recebendo, e é a dose maior que estabiliza o endométrio. A faixa registrada em bula é de 100 a 200 mg por dia, e os 200 mg aparecem lá no esquema sequencial; usá-los todos os dias é um ajuste clínico dentro da faixa de dose, não um dos esquemas impressos 16. Sangramento que não cede com esse ajuste, ou que aparece depois de meses sem sangrar, deixa de ser questão de dose e vira indicação de investigar o endométrio.

Outras duas situações mudam esse ponto de partida. Se a sonolência atrapalhar mesmo tomando à noite, a via vaginal entra na conversa, e aqui há uma divergência que vale explicitar. No Brasil essa via não é uso fora de bula: a bula do produto autoriza trocar a via oral pela vaginal em todas as indicações quando aparecem sonolência ou sensação de vertigem 16. Já o painel internacional que reuniu os estudos de proteção do endométrio classifica os esquemas vaginais como uso off-label, porque por essa via os estudos são menos numerosos, valem para esquemas próprios (pelo menos 10 dias por mês, em doses específicas) e cobrem três a cinco anos 2. Uma coisa é a permissão do rótulo brasileiro, outra é o tamanho da evidência específica, e as duas convivem. Se já existe sangramento intenso, ou se ainda é preciso evitar gravidez na transição, o dispositivo intrauterino com levonorgestrel dá conta das três de uma vez, a proteção do endométrio, o sangramento e a contracepção, e aí o que eu faço é apresentar honestamente a divergência sobre mama antes de decidir junto.

Falta a decisão de onde o medicamento é comprado. Em algumas situações eu prescrevo a progesterona micronizada oral em farmácia de manipulação, para baratear um tratamento que vai durar anos ou para chegar a uma dose que não existe pronta. Manipular é atividade regulada pela Anvisa, pela Resolução RDC nº 67 de 2007, que fixa boas práticas até o controle de qualidade da matéria-prima e prevê penalidade em caso de desvio de qualidade 18; ainda assim, a literatura sobre hormônios manipulados examina a variabilidade entre preparações e levanta preocupação quanto a pureza, potência e qualidade 15, e o consenso da ACOG pede que a paciente seja informada disso 12. A diretriz brasileira não recomenda hormônio manipulado 8, e a minha divergência tem um motivo que este artigo inteiro sustenta: o que mais mexe no risco é qual molécula está na cápsula, não se a caixa é registrada. Entre uma reposição manipulada com estradiol e progesterona micronizada e uma reposição pronta com estrogênio equino ou sintético e progestagênio sintético, eu prefiro a primeira, porque é a molécula que carrega a diferença de risco de mama 3,4,9. O raciocínio completo, com a norma da Anvisa, está no artigo da via do estrogênio, linkado no fim desta seção.

O que é próprio daqui, e por isso não fica só lá: proteção do endométrio não se sente. Se um lote de estradiol vier fraco, o fogacho volta e avisa. Se um lote de progesterona vier fraco, não há sintoma dizendo que o útero ficou desprotegido, e o aviso, quando vem, é sangramento, que pode demorar. Por isso três condições ficam escritas na receita e não combinadas de boca: farmácia confiável, com controle de qualidade conferível; dose escrita; e acompanhamento mais próximo do que seria com o produto registrado, com atenção a qualquer mudança no padrão de sangramento e disposição para trocar de farmácia ou voltar à apresentação pronta se algo ficar inconstante. E a fronteira de sempre: manipular uma cápsula oral de progesterona micronizada é uma coisa; manipular um creme para passar na pele é outra, porque ali o problema não é a farmácia, é a via, que não protege em lugar nenhum 2,5,15.

Há um detalhe que liga esta decisão à outra, e ele quase sempre passa em branco: aquele ganho de colesterol que o estrogênio oral (comprimido) produz some em boa parte quando entra o progestagênio, e o que menos apaga esse ganho é justamente a progesterona micronizada 7. Quem escolheu o comprimido de estrogênio por causa do colesterol precisa saber que o progestagênio escolhido decide quanto desse benefício sobra.

A outra metade da decisão, a via pela qual o estrogênio entra no corpo, está aqui: https://drmarciogester.com.br/artigos/via-reposicao-hormonal-gel-adesivo-comprimido/

Em resumo, o que eu diria numa consulta

Se você tem útero e usa estrogênio, o progestagênio não é um acessório da receita, é a parte que impede um problema que o estrogênio sozinho cria, e o tamanho desse problema é grande: quase 3 em cada 10 mulheres com estrogênio isolado desenvolveram crescimento do endométrio em três anos 1. Se você não tem mais útero, em geral ele não é necessário, com uma exceção que precisa ser dita em voz alta: histerectomia por endometriose, em que os focos que sobraram continuam respondendo ao estrogênio e as recomendações atuais preferem a fórmula combinada 11.

Qual progestagênio, isso muda o risco de mama, e a via do estrogênio não muda 3. A progesterona micronizada é a que tem o melhor conjunto de sinais nesse quesito, e por isso é por onde eu começo. As sintéticas continuam sendo escolhas legítimas, com vantagens práticas reais, e a didrogesterona é a que se aproxima mais da micronizada nos números 3,4,9. O que não vale, e costuma me chegar pronto do consultório de outra pessoa, é creme manipulado passado na pele achando que aquilo está protegendo o útero, porque não está 2,5,8.

Uma correção que eu mesmo preciso fazer à ideia mais difundida sobre o assunto: o progestagênio não é só a parte chata da receita. A progesterona micronizada, em dose maior, também reduz fogacho e melhora o sono, e para quem não pode usar estrogênio isso deixa de ser detalhe e vira a opção principal a discutir 13,14.

A frase para levar embora: numa receita combinada, o estrogênio é o que resolve o seu sintoma e o progestagênio é o que paga a conta de segurança que ele abre. Escolher bem o segundo é tão importante quanto escolher bem o primeiro.

Se você faz reposição e não sabe dizer qual progestagênio está tomando, nem por quantos dias do mês, vale levar a caixa para a próxima consulta.

Quando procurar um endocrinologista

Vale marcar uma avaliação se você tem útero, usa estrogênio e não sabe dizer se toma algum progestagênio junto; se usa creme ou gel de progesterona na pele como se fosse a proteção do útero; se toma o progestagênio oral menos de 12 dias por mês; se apareceu sangramento novo depois de meses sem sangrar, ou sangramento que mudou de padrão; se sangra no esquema contínuo e ninguém reviu a dose; se retirou o útero por endometriose e usa estrogênio isolado; se a sonolência da cápsula atrapalha o seu dia e você pensou em parar por conta própria; ou se tem história pessoal ou familiar de câncer de mama e nunca conversou sobre como isso pesa na escolha do progestagênio. Nada aqui substitui a avaliação individual, e nenhuma conduta deve ser iniciada, alterada ou interrompida a partir da leitura de um texto na internet.


Conteúdo informativo, de caráter educativo. Não substitui a consulta médica, o exame clínico nem a orientação individual de quem acompanha o seu caso. Todos os medicamentos citados aqui têm critérios de indicação, contraindicações e necessidade de acompanhamento, e nenhum deve ser iniciado, ajustado, trocado de forma ou suspenso por conta própria. Este texto trata da escolha do progestagênio na reposição hormonal de mulheres com indicação já estabelecida de terapia hormonal, e menciona o uso da progesterona isolada para fogacho apenas como uma possibilidade a discutir em consulta, com a evidência e as ressalvas que existem hoje; ele não é um protocolo desse uso, não discute para quem a reposição é indicada, não trata da escolha da via do estrogênio, de contracepção, do tratamento da endometriose em si, de sangramento fora do contexto da reposição, nem de progesterona na gravidez.

Se você tem dúvidas sobre o progestagênio da sua reposição hormonal, agende uma avaliação com um endocrinologista.

Leia também

Fontes científicas

  1. Writing Group for the PEPI Trial. Effects of hormone replacement therapy on endometrial histology in postmenopausal women. The Postmenopausal Estrogen/Progestin Interventions (PEPI) Trial. JAMA. 1996;275(5):370-5. doi:10.1001/jama.1996.03530290040035.
    https://doi.org/10.1001/jama.1996.03530290040035 · PubMed 8569016
  2. Stute P, Neulen J, Wildt L. The impact of micronized progesterone on the endometrium: a systematic review. Climacteric. 2016;19(4):316-28. doi:10.1080/13697137.2016.1187123.
    https://doi.org/10.1080/13697137.2016.1187123 · PubMed 27277331
  3. Fournier A, Berrino F, Clavel-Chapelon F. Unequal risks for breast cancer associated with different hormone replacement therapies: results from the E3N cohort study. Breast Cancer Res Treat. 2008;107(1):103-11. doi:10.1007/s10549-007-9523-x.
    https://doi.org/10.1007/s10549-007-9523-x · PubMed 17333341
  4. Vinogradova Y, Coupland C, Hippisley-Cox J. Use of hormone replacement therapy and risk of breast cancer: nested case-control studies using the QResearch and CPRD databases. BMJ. 2020;371:m3873. doi:10.1136/bmj.m3873.
    https://doi.org/10.1136/bmj.m3873 · PubMed 33115755
  5. Ruan X, Mueck AO. Systemic progesterone therapy - oral, vaginal, injections and even transdermal? Maturitas. 2014;79(3):248-55. doi:10.1016/j.maturitas.2014.07.009.
    https://doi.org/10.1016/j.maturitas.2014.07.009 · PubMed 25113944
  6. Nolan B, Liang B, Cheung A. Efficacy of Micronized Progesterone for Sleep: A Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Controlled Trial Data. J Clin Endocrinol Metab. 2021;106(4):942-951. doi:10.1210/clinem/dgaa873.
    https://doi.org/10.1210/clinem/dgaa873 · PubMed 33245776
  7. Shufelt C, Manson J. Menopausal Hormone Therapy and Cardiovascular Disease: The Role of Formulation, Dose, and Route of Delivery. J Clin Endocrinol Metab. 2021;106(5):1245-1254. doi:10.1210/clinem/dgab042.
    https://doi.org/10.1210/clinem/dgab042 · PubMed 33506261
  8. Oliveira G, Almeida M, Arcelus C, Neto Espíndola L, Rivera M, Silva-Filho A, et al. Brazilian Guideline on Menopausal Cardiovascular Health, 2024 (Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa). Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e20240478. doi:10.36660/abc.20240478.
    https://doi.org/10.36660/abc.20240478 · PubMed 39166619
  9. Ylikorkala O, Joensuu J, Siitonen H, Mikkola T. Progestogens in Menopausal Hormone Therapy: A Double-Edged Sword. Semin Reprod Med. 2025;43(2):145-153. doi:10.1055/s-0045-1809186.
    https://doi.org/10.1055/s-0045-1809186 · PubMed 40378875
  10. Conz L, Mota B, Bahamondes L, Teixeira Dória M, Derchain S, Rieira R, et al. Levonorgestrel-releasing intrauterine system and breast cancer risk: A systematic review and meta-analysis. Acta Obstet Gynecol Scand. 2020;99(8):970-982. doi:10.1111/aogs.13817.
    https://doi.org/10.1111/aogs.13817 · PubMed 31990981
  11. Cassani C, Tedeschi S, Cucinella L, Morteo V, Camnasio C, Tiranini L, et al. Menopause and endometriosis. Maturitas. 2024;190:108129. doi:10.1016/j.maturitas.2024.108129.
    https://doi.org/10.1016/j.maturitas.2024.108129 · PubMed 39357143
  12. American College of Obstetricians and Gynecologists' Clinical Consensus Committee-Gynecology. Compounded Bioidentical Menopausal Hormone Therapy: ACOG Clinical Consensus No. 6. Obstet Gynecol. 2023;142(5):1266-1273. doi:10.1097/AOG.0000000000005395.
    https://doi.org/10.1097/AOG.0000000000005395 · PubMed 37856860
  13. Prior J. Progesterone for treatment of symptomatic menopausal women. Climacteric. 2018;21(4):358-365. doi:10.1080/13697137.2018.1472567.
    https://doi.org/10.1080/13697137.2018.1472567 · PubMed 29962247
  14. Hitchcock C, Prior J. Oral micronized progesterone for vasomotor symptoms - a placebo-controlled randomized trial in healthy postmenopausal women. Menopause. 2012;19(8):886-93. doi:10.1097/gme.0b013e318247f07a.
    https://doi.org/10.1097/gme.0b013e318247f07a · PubMed 22453200
  15. Stanczyk F, Matharu H, Winer S. Bioidentical hormones. Climacteric. 2021;24(1):38-45. doi:10.1080/13697137.2020.1862079.
    https://doi.org/10.1080/13697137.2020.1862079 · PubMed 33403887
  16. Bula do Utrogestan (progesterona micronizada 100 e 200 mg), Besins Healthcare Brasil
    https://bulas-ecommerce.s3.sa-east-1.amazonaws.com/bula-utrogestan-paciente_b7ddb98e-5f13-4fa5-a1e1-02a583a8c73e.pdf
  17. Bula do Mirena (dispositivo intrauterino com levonorgestrel 52 mg), Bayer S.A.
    https://cr-net-public-prod.s3.amazonaws.com/product_leaflet/CF90B189CFF9689A58A5DFB8CE237539.pdf
  18. Resolução RDC nº 67, de 8 de outubro de 2007, da Anvisa (Boas Práticas de Manipulação de Preparações Magistrais e Oficinais para Uso Humano em farmácias), com as alterações da RDC nº 87/2008
    https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2007/rdc0067_08_10_2007.html

Dúvidas dos leitores

Progesterona natural é o creme manipulado que me indicaram?

Não é, e a diferença não está na farmácia, está na via. A progesterona micronizada em cápsula, para tomar, é a molécula idêntica à que o corpo produzia, e é essa que tem estudo mostrando proteção do útero. O creme costuma ser vendido com o mesmo apelo de natural, mas passado na pele ele não alcança a concentração necessária para frear o estímulo do estrogênio, e isso vale para qualquer creme de progesterona, manipulado ou não. Manipular uma cápsula oral, com dose escrita, é outra conversa, e tem lugar em situações específicas. Se você usa estrogênio e tem útero, essa distinção deixa de ser detalhe e passa a ser a parte que protege você.

Eu não tenho mais útero. Preciso tomar progesterona?

Em geral não, e há uma exceção importante. Sem útero não existe o endométrio que o progestagênio protege, então quem retirou o útero costuma usar estrogênio isolado, o que de quebra evita o acréscimo de risco de mama que vem justamente do progestagênio. A exceção é a endometriose: se a cirurgia foi por endometriose e sobraram focos, esses focos continuam respondendo ao estrogênio, com risco de recidiva e, mais raramente, de transformação maligna. Os dados nessa situação não são conclusivos, e por isso as recomendações atuais tendem a preferir a fórmula combinada, com progestagênio, em vez do estrogênio isolado. Se a sua histerectomia foi por endometriose, essa pergunta precisa ser feita em voz alta na consulta.

Tomo a progesterona de manhã porque à noite eu esqueço. Muda alguma coisa?

Muda o conforto, não a proteção do útero, desde que você tome todos os dias do esquema combinado com o seu médico. O problema prático é o sono: a bula registra sonolência e sensação de vertigem depois da absorção oral, e é por isso que o esquema é escrito para a hora de dormir. Tomar de manhã costuma render sonolência no meio do dia. Se lembrar à noite é o obstáculo real, vale conversar sobre alarme, sobre deixar a caixa ao lado da escova de dentes, ou sobre a via vaginal, que reduz esse efeito.

Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.