
Ozivy, o "genérico" do Ozempic: o primeiro semaglutida nacional é confiável?
Em resumo: o Ozivy, da farmacêutica EMS, é a primeira semaglutida (o princípio ativo do Ozempic) fabricada no Brasil, e já está à venda desde junho de 2026, por cerca de metade do preço do original. É uma boa notícia de acesso, com duas ressalvas que eu faço questão de explicar: ele é aprovado para diabetes tipo 2, e não para emagrecer, e não deve ser confundido com as canetas manipuladas, que continuam sendo um risco. Aqui eu explico se dá para confiar e por quê.
Por Dr. Márcio Gester, Endocrinologista, CRM-PA 14727, RQE 9424. Atualizado em 19/08/2026.
O que saiu na mídia
A patente da semaglutida caiu no Brasil em março de 2026, depois de o STJ (Superior Tribunal de Justiça) barrar a tentativa da fabricante original de estender a exclusividade, como noticiou o Poder360. Foi isso que abriu o mercado para versões nacionais. A primeira a chegar foi o Ozivy, da EMS, aprovado pela Anvisa em maio de 2026 e à venda desde junho, segundo a imprensa, como o jornal O Tempo e o portal Seu Dinheiro. Em 10 de julho de 2026, a Anvisa deu mais um passo e incluiu o Ozivy na sua lista de medicamentos de referência, o que significa que ele passa a servir de parâmetro de eficácia, segurança e qualidade para as próximas versões nacionais que vierem.
O ponto que interessa ao seu bolso: as reportagens noticiaram o Ozivy na faixa de 452 a 498 reais, contra algo entre 975 e 999 reais do Ozempic, dependendo da dose. Ou seja, um preço perto da metade, pela via regular, com registro. E é justamente essa diferença de preço que costuma empurrar as pessoas para as versões manipuladas. Por isso eu quero deixar claro onde está a linha entre o que é seguro e o que não é.
Afinal, o Ozivy é "genérico" mesmo?
A imprensa apelidou o Ozivy de "Ozempic genérico", mas vale entender a diferença, porque ela importa. Existem três categorias que costumam ser confundidas 8,9:
| Genérico clássico | é a cópia de um remédio de molécula pequena e simples, como a maioria dos comprimidos. Ele é quimicamente idêntico ao original e fácil de caracterizar por completo, e para ser aprovado basta provar bioequivalência (que entrega a mesma substância, na mesma quantidade e velocidade, que o de referência) 8,9. |
|---|---|
| Biossimilar | é a cópia de um medicamento biológico, uma molécula grande e complexa produzida dentro de células vivas. Como a fabricação em organismos vivos tem variação natural, o biossimilar é "altamente similar", mas nunca 100% idêntico ao original, e por isso exige uma bateria maior de testes, incluindo estudos clínicos comparativos 8,9. |
| Cópia sintética de peptídeo | é o caso da semaglutida. Ela é uma molécula intermediária que pode ser fabricada por síntese química (montada em laboratório, e não a partir de células vivas). Isso tem uma vantagem: dá para caracterizar com precisão a molécula que saiu da fábrica, diferente da variabilidade inerente a um biológico. |
Por isso o Ozempic, sendo biológico, não tem "genérico" no sentido clássico pela lei brasileira. O Ozivy é uma cópia sintética: entrega a mesma molécula, a semaglutida, por um caminho de fabricação que permite controle e caracterização apurados.
O que garante a confiança não é o apelido, é o registro. Para ser aprovado e, mais ainda, para entrar na lista de referência da Anvisa, o Ozivy teve que passar pela verificação técnica de eficácia, segurança e qualidade da agência. É essa fiscalização, com controle de dose, de pureza e de esterilidade, que separa um produto registrado de uma versão feita por fora.
Dá para confiar? O que a ciência mostra
Aqui vale traduzir o que a evidência já traz sobre a semaglutida feita por síntese química, que é justamente a classe do Ozivy. Onde essas versões sintéticas foram testadas cabeça a cabeça contra o original, em estudos controlados, elas empataram nos resultados que importam.
Em dois ensaios de fase III (a etapa final de teste em humanos antes da aprovação) desenhados para comprovar não inferioridade (isto é, que a versão sintética não é pior que o original):
- Num estudo com 314 pessoas com diabetes tipo 2, a semaglutida sintética reduziu a hemoglobina glicada (o exame que mostra a média do açúcar no sangue dos últimos meses) em 2,04%, contra 1,95% do Ozempic, um resultado equivalente, com efeitos colaterais semelhantes e sem sinais de reação imune ao produto 1.
- Num estudo com 270 pessoas em tratamento de peso, a versão sintética levou a uma redução de 13,8% do peso corporal, contra 14,1% do original de referência, também dentro da faixa de equivalência 2.
Fora dos ensaios, um estudo de mundo real com 217 pessoas no Paquistão acompanhou uma semaglutida biossintética por 30 semanas e encontrou queda média de 1,86% na hemoglobina glicada e de 7,84 kg no peso, com segurança compatível com a do produto original 3. E o movimento é global: o Canadá já aprovou versões concorrentes da semaglutida, com forte redução de preço 4.
Sejamos precisos: nenhum desses estudos foi feito com o Ozivy em si, e a EMS não publicou um ensaio próprio comparando o Ozivy ao Ozempic cara a cara. O que a evidência mostra, e que sustenta a confiança, é outra coisa, e importante: quando uma semaglutida sintética é feita com controle e testada como manda o protocolo, ela se comporta como o original. Some isso ao crivo técnico da Anvisa, e você tem o motivo pelo qual um produto registrado como o Ozivy é uma opção legítima.
Atenção: o Ozivy é aprovado para diabetes, não para emagrecer
Esse é o ponto que mais gera confusão e que eu não poderia deixar de fora. O Ozivy foi aprovado pela Anvisa para o tratamento de adultos com diabetes tipo 2 mal controlado. A bula profissional dele, disponível no bulário eletrônico da Anvisa, não traz indicação para obesidade ou emagrecimento 12.
E vale entender por que essa indicação é tão significativa, porque a semaglutida faz muito mais do que baixar o açúcar no diabetes. Em estudos grandes, ela reduziu eventos cardiovasculares, como infarto e AVC (derrame), e protegeu os rins de quem tem diabetes tipo 2 5. No estudo FLOW, feito com pessoas com diabetes e doença renal crônica, a semaglutida reduziu em cerca de 24% o risco de piora dos rins e também a mortalidade 6. É esse conjunto de benefícios comprovados que sustenta a indicação para diabetes, e é justamente por isso que a indicação e a dose corretas importam tanto.
Usar o Ozivy para emagrecer é o que chamamos de uso off-label, ou seja, fora da indicação aprovada. Uso off-label existe na medicina e às vezes é justificável, mas é uma decisão que só cabe a um médico tomar, caso a caso, pesando risco e benefício, e nunca algo para a pessoa decidir por conta própria a partir de uma manchete. Se o seu objetivo é tratar obesidade, o caminho certo é conversar com um endocrinologista sobre qual a melhor opção, inclusive as que têm essa indicação aprovada. Ter ficado mais barato é ótimo, mas não muda o essencial: se esse medicamento serve para o seu caso, e em qual dose, continua sendo uma decisão do médico, não algo para resolver sozinho só porque agora cabe no bolso.
O Ozivy não é caneta manipulada
Preço menor costuma acender a dúvida entre o produto regular e o manipulado, então deixo a linha bem clara. O Ozivy é um medicamento registrado na Anvisa, vendido em farmácia, com dose padronizada e controle de qualidade. A caneta manipulada de origem alternativa é o oposto: produzida fora do registro sanitário, sem um padrão oficial para conferir o que está de fato dentro da injeção.
A Associação Americana de Diabetes (ADA) e a Associação Americana de Endocrinologia Clínica (AACE) recomendam explicitamente não usar produtos manipulados ou não aprovados pelas agências reguladoras 7, e as sociedades brasileiras da área, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), mantêm o mesmo alerta 11. Eu já detalhei esses riscos, dose imprevisível, princípio ativo que pode não ser idêntico e falta de garantia de esterilidade, no texto sobre as canetas manipuladas aqui do blog. Com uma opção registrada e mais barata disponível, existe ainda menos razão para correr o risco do manipulado.
O que isso muda para você, na prática
| Chegou uma opção mais barata pela via certa | Uma semaglutida registrada na Anvisa, em farmácia e com prescrição, é um avanço real de acesso. |
|---|---|
| Confira a indicação | O Ozivy é aprovado para diabetes tipo 2. Se a conversa é sobre emagrecimento, isso é uso off-label e depende de avaliação médica. |
| Mais barato e regular não é o mesmo que manipulado | O Ozivy é barato porque a patente caiu e surgiu concorrência, não porque cortou controle de qualidade 10. |
| A decisão segue sendo clínica | Ter o produto na prateleira não o transforma em item de balcão. Indicação, escolha e dose continuam dependendo de avaliação. |
Quando procurar um endocrinologista
Se você tem diabetes ou obesidade e está acompanhando a chegada do Ozivy e das próximas versões nacionais, o melhor uso dessa informação é levá-la para uma consulta, seja comigo ou com outro endocrinologista habilitado. Vale especialmente procurar quando há diabetes tipo 2 em acompanhamento, quando há sobrepeso ou obesidade com outras condições associadas (como pressão alta ou colesterol alterado), ou quando surge a dúvida sobre iniciar, trocar ou usar um desses medicamentos. Na consulta, o que se faz é verificar se há indicação, qual a melhor opção para o seu caso e como acompanhar o tratamento com segurança. Mais acesso é bom, e fica ainda melhor com orientação.
Leia também
Fontes científicas
- Ambika Gopalakrishnan U, Joshi A, Giri R, Shah S, Shukla J, Maheshwari S, et al. Semaglutide Injection in Indian Patients With Type 2 Diabetes Mellitus: A Randomised, Phase III, Active-Controlled Study. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2026;28(8):7094-7103. doi:10.1111/dom.70891.
→ https://doi.org/10.1111/dom.70891 · PubMed 42219226 - Ambika Gopalakrishnan U, Joshi A, Kumar H, Giri R, Maheshwari S, Prasad V, et al. Semaglutide Injection Once-Weekly for Weight Management in Adults: Results From a Randomized Phase III, Active-Controlled Study. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2026. doi:10.1111/dom.71069.
→ https://doi.org/10.1111/dom.71069 · PubMed 42403263 - Hussain A, Wahab M, Qureshi S, Raja U, Munir A, Gardezi S, et al. Real-World Evidence of the Effectiveness and Safety of Biosynthetic Semaglutide in Type 2 Diabetes: A Multicentre Study From Pakistan. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2026. doi:10.1111/dom.71043.
→ https://doi.org/10.1111/dom.71043 · PubMed 42365987 - Tu S, Kesselheim A, Tadrous M, Beall R. Early Generic Semaglutide in Canada—Implications for US Patients and Policy. JAMA Internal Medicine. 2026. doi:10.1001/jamainternmed.2026.2209.
→ https://doi.org/10.1001/jamainternmed.2026.2209 · PubMed 42258199 - Rosen C, Ingelfinger J. GLP-1 Receptor Agonists. New England Journal of Medicine. 2026;394(13):1313-1324. doi:10.1056/nejmra2500106.
→ https://doi.org/10.1056/nejmra2500106 · PubMed 41931049 - Mann J, Rossing P, Bakris G, Belmar N, Bosch-Traberg H, Busch R, et al. Effects of semaglutide with and without concomitant SGLT2 inhibitor use in participants with type 2 diabetes and chronic kidney disease in the FLOW trial. Nature Medicine. 2024;30(10):2849-2856. doi:10.1038/s41591-024-03133-0.
→ https://doi.org/10.1038/s41591-024-03133-0 · PubMed 38914124 - Neumiller J, Bajaj M, Bannuru R, McCoy R, Pekas E, Segal A, et al. Compounded GLP-1 and Dual GIP/GLP-1 Receptor Agonists: A Statement from the American Diabetes Association. Diabetes Care. 2024;48(2):177-181. doi:10.2337/dci24-0091.
→ https://doi.org/10.2337/dci24-0091 · PubMed 39620926 - Reigart J, Cash J, Siu A, Haunani Foster J, Guimbellot J, Horton D, et al. Generic and Biosimilar Prescribing in Children and Adolescents: Technical Report. Pediatrics. 2026;157(6). doi:10.1542/peds.2026-077028.
→ https://doi.org/10.1542/peds.2026-077028 · PubMed 42184972 - Karalis V. From Bioequivalence to Biosimilarity: The Rise of a Novel Regulatory Framework. Drug Research. 2015;66(01):1-6. doi:10.1055/s-0035-1548911.
→ https://doi.org/10.1055/s-0035-1548911 · PubMed 25894088 - Posicionamento SBEM, SBD e ABESO reforçando confiança na Anvisa após a expiração da patente da semaglutida (jun/2026)
→ https://www.endocrino.org.br/noticias/posicionamento-sbem-sbd-e-abeso-reforcam-confianca-na-anvisa-apos-expiracao-da-patente-da-semaglutida/ - Posicionamento conjunto SBD, SBEM e ABESO sobre medicamentos injetáveis de origem alternativa (manipulados)
→ https://diabetes.org.br/posicionamento-conjunto-da-sbd-sbem-e-abeso-sobre-medicamentos-injetaveis-de-origem-alternativa-destinados-ao-tratamento-da-obesidade-e-do-diabetes-mellitus/ - EMS. Ozivy (semaglutida), bula profissional aprovada pela Anvisa, no bulário eletrônico (seção de indicações conferida: diabetes tipo 2, sem indicação para obesidade)
→ https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/q/?nomeProduto=OZIVY
Fontes jornalísticas
- O Tempo: Anvisa inclui Ozivy, caneta brasileira de semaglutida sintética, na lista de referência (10/07/2026) → https://www.otempo.com.br/brasil/2026/7/10/anvisa-inclui-ozivy-caneta-brasileira-de-semaglutida-sintetica-na-lista-de-referencia
- Seu Dinheiro: Ozivy, o 'Ozempic genérico', é aprovado pela Anvisa → https://www.seudinheiro.com/2026/economia/ozivy-o-ozempic-generico-e-aprovado-pela-anvisa-veja-valores-mlem/
- Poder360: Ozempic, patente expira em 2026 e abre caminho para genéricos → https://www.poder360.com.br/poder-saude/patente-do-ozempic-expira-em-2026-e-abre-caminho-para-genericos/
Dúvidas dos leitores
Posso usar o Ozivy para emagrecer?
O Ozivy é aprovado pela Anvisa para diabetes tipo 2. Usá-lo para emagrecimento é off-label, ou seja, fora da indicação da bula, o que só deve acontecer sob avaliação e responsabilidade médica, caso a caso, e nunca por conta própria. Se o seu objetivo é tratar obesidade, o caminho é conversar com um endocrinologista sobre qual a melhor opção aprovada para isso.
O Ozivy é tão bom quanto o Ozempic de marca?
O Ozivy passou pela avaliação técnica da Anvisa de eficácia, segurança e qualidade, e virou inclusive o parâmetro de referência para as próximas versões nacionais. É por isso que ele é confiável, ao contrário das versões manipuladas. Vale lembrar que ele é feito por síntese química, uma cópia sintética do princípio ativo, e não uma versão idêntica ao biológico original. O que eu oriento é: sendo registrado na Anvisa e com prescrição, é uma opção legítima e mais acessível.
Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.