Dr. Márcio GesterEndocrinologista · CRM-PA 14727 ← Início
Canetas de emagrecer manipuladas: por que eu e as sociedades médicas alertamos

Canetas de emagrecer manipuladas: por que eu e as sociedades médicas alertamos

Em resumo: eu me somo ao alerta da SBEM, da SBD e da ABESO sobre as canetas de emagrecer manipuladas e de origem alternativa, incluindo as importadas de forma irregular 4. O problema não está na classe do medicamento, que funciona e tem lugar no tratamento. Está na falta de controle de dose, de pureza e de esterilidade das versões que fogem do registro da Anvisa. Aqui eu explico como esses remédios agem, o que a ciência já mostra sobre os riscos das versões alternativas e como fazer o tratamento com segurança.

Por Dr. Márcio Gester, Endocrinologista, CRM-PA 14727, RQE 9424. Atualizado em 19/07/2026.

O que saiu na mídia

As três principais entidades médicas da área, a SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), a SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes) e a ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade), publicaram uma nota conjunta, reforçando um posicionamento de fevereiro de 2025, sobre os injetáveis de origem alternativa para obesidade e diabetes. No mesmo período, a Anvisa ampliou a fiscalização das farmácias de manipulação e interditou empresas por falhas de controle de qualidade, o que foi noticiado pela imprensa, como pela Agência Brasil. Um dado dessa nota me chamou a atenção: uma amostra analisada tinha concentração cerca de 60% acima da que estava no rótulo.

O que são essas canetas, e por que elas funcionam

São medicamentos injetáveis que imitam hormônios naturais do intestino ligados ao controle do apetite e do açúcar no sangue, os chamados incretínicos. Os mais conhecidos são os análogos de GLP-1 (uma cópia de um hormônio natural do intestino), como a semaglutida (vendida como Ozempic e Wegovy) e a liraglutida, e os análogos duplos de GLP-1/GIP (que imitam dois desses hormônios ao mesmo tempo), como a tirzepatida (Mounjaro e Zepbound).

Eles agem em três frentes ao mesmo tempo: aumentam a sensação de saciedade em áreas do cérebro que regulam o apetite, deixam o estômago mais lento para esvaziar (por isso a fome demora mais a voltar) e estimulam a liberação de insulina apenas quando o açúcar no sangue está alto, o que ajuda no diabetes com baixo risco de hipoglicemia. Foi por entregarem, nos estudos, uma perda de peso expressiva e uma melhora importante do controle do diabetes que a procura cresceu tanto. E foi junto com essa procura que apareceram as versões manipuladas e de origem alternativa, que são o alvo do alerta.

Onde está o risco: manipuladas, importadas e falsificadas

Aqui está o ponto que eu faço questão de reforçar: o problema não é a classe do medicamento, é a falta de controle das versões que fogem do registro sanitário. A Associação Americana de Diabetes (ADA) e a Associação Americana de Endocrinologia Clínica (AACE) recomendam explicitamente não usar produtos manipulados ou não aprovados pelas agências reguladoras 1,2. Os motivos são concretos e já documentados:

Princípio ativo que pode não ser o mesmoMuitas versões manipuladas usam formas de sal, como a semaglutida sódica ou a acetato, que não são quimicamente idênticas à molécula aprovada e cujo comportamento no corpo e segurança nunca foram comprovados 1. Além disso, a síntese química usada por manipuladores pode gerar fragmentos de proteína novos (neopeptídeos), com potencial de provocar reação do sistema imune 2.
Dose imprevisívelSem o controle de qualidade de um produto registrado, a concentração real pode ficar acima ou abaixo do rótulo. As sociedades citaram uma amostra com cerca de 60% a mais, e análises de produtos comprados em farmácias online ilegais chegaram a encontrar de 29% a 39% de princípio ativo a mais do que o rótulo indicava.
Erros graves de dose na aplicaçãoEm 2024, a agência americana que regula remédios e alimentos (FDA) alertou para aplicações de 5 a 20 vezes a dose pretendida com semaglutida manipulada 1. Isso acontece porque, em vez da caneta pronta e padronizada, o produto vem em frasco ou seringa com concentrações que variam até entre lotes do mesmo manipulador, e a pessoa se confunde entre mililitros, miligramas e "unidades". Entre os casos relatados houve efeitos digestivos graves, desmaio, desidratação, pancreatite aguda (inflamação do pâncreas) e cálculos na vesícula, alguns com internação 1.
Pureza e contaminaçãoUm estudo que comprou amostras de farmácias online ilegais encontrou endotoxina (resíduo de bactéria que causa reação no corpo) em todas as amostras, com pureza da semaglutida variando de apenas 7,7% a 14,4%, contra os 99% prometidos no rótulo. Por ser um injetável, a falta de garantia de esterilidade (ausência de micro-organismos) é um risco direto.
Ingredientes que ninguém testou juntosCerca de metade (48%) dos produtos manipulados analisados num levantamento tinha aditivos, como vitamina B12, glicina ou ondansetrona, misturados ao peptídeo sem qualquer teste dessa combinação.
Sem um padrão oficial de qualidadeNão existe uma monografia oficial de referência (um padrão reconhecido de identidade, força e pureza) para a semaglutida ou a tirzepatida manipuladas, ou seja, não há um parâmetro contra o qual conferir o que está de fato dentro da injeção 1.

O que a farmacovigilância mostra

Farmacovigilância é o monitoramento dos efeitos dos remédios depois que eles chegam ao mercado. Um estudo publicado em 2025 comparou 707 relatos de eventos adversos ligados a produtos manipulados contra o conjunto de mais de 81 mil relatos do sistema oficial americano 3. A tabela abaixo mostra quantas vezes mais, de forma proporcional, alguns problemas apareceram nos manipulados em comparação com o total de relatos (a medida técnica é a razão de reporte, ou ROR):

Problema relatadoQuantas vezes mais nos manipuladosIntervalo de confiança
Erros de preparo do produto48,9×12,6 a 189,6
Contaminação19,0×4,2 a 85,0
Problemas de fabricação/manipulação8,5×5,2 a 14,0
Colecistite (inflamação da vesícula)3,4×1,6 a 6,3
Dor abdominal2,8×2,3 a 3,5
Hospitalização2,35×1,9 a 2,8

Selecionei alguns dos sinais mais ligados a falha de qualidade. Esses números mostram associação, ou seja, mais relatos, e não uma prova de causa direta paciente a paciente. Ainda assim, a direção é clara e coerente com tudo o que os órgãos reguladores vêm encontrando.

Na minha leitura, as versões manipuladas trocam um tratamento previsível e acompanhado por um imprevisível, sem que o eventual ganho no preço justifique o risco.

Os efeitos da própria classe: o que esperar

Para ser justo com a informação, o medicamento registrado também tem efeitos colaterais, e é por isso que ele exige acompanhamento. Os mais comuns são digestivos, como náusea, vômito, diarreia e prisão de ventre, e costumam ser mais fortes no começo, na fase de aumento gradual da dose, tendendo a melhorar com o tempo. É justamente por isso que a dose sobe devagar, de forma individualizada.

Há também sinais de alerta menos frequentes que fazem parte da avaliação médica: risco de pancreatite e de problemas de vesícula, e uma contraindicação importante para quem tem história pessoal ou familiar de um tipo raro de câncer de tireoide (o carcinoma medular) ou da síndrome genética MEN2. Nada disso é motivo para pânico, mas é exatamente o tipo de coisa que só uma consulta consegue rastrear antes de começar, e que uma caneta comprada fora dos canais regulares ignora por completo.

Como eu oriento usar com segurança

Quando procurar um endocrinologista

Se você está pensando em tratamento para obesidade ou diabetes, o caminho seguro começa por uma avaliação com um endocrinologista, seja comigo ou com outro profissional habilitado. Vale especialmente procurar quando há obesidade ou sobrepeso com outras condições associadas (como pressão alta, diabetes, colesterol alterado ou apneia do sono), quando tentativas anteriores não se sustentaram, ou quando surge a dúvida sobre usar ou não um desses medicamentos. Na consulta, o que se faz é verificar se existe indicação, qual a melhor opção para o seu caso, quais os cuidados e os sinais a observar, e como acompanhar o tratamento ao longo do tempo. A ideia deste texto não é vender uma consulta, e sim deixar claro que esse tipo de decisão pede avaliação, não improviso.

Leia também

Fontes científicas

  1. Neumiller J, Bajaj M, Bannuru R, McCoy R, Pekas E, Segal A, et al. Compounded GLP-1 and Dual GIP/GLP-1 Receptor Agonists: A Statement from the American Diabetes Association. Diabetes Care. 2024;48(2):177-181. doi:10.2337/dci24-0091.
    https://doi.org/10.2337/dci24-0091 · PubMed 39620926
  2. Nadolsky K, Garvey W, Agarwal M, Bonnecaze A, Burguera B, Chaplin M, et al. American Association of Clinical Endocrinology Consensus Statement: Algorithm for the Evaluation and Treatment of Adults With Obesity/Adiposity-Based Chronic Disease – 2025 Update. Endocrine Practice. 2025;31(11):1351-1394. doi:10.1016/j.eprac.2025.07.017.
    https://doi.org/10.1016/j.eprac.2025.07.017 · PubMed 40956256
  3. McCall K, Mastro Dwyer K, Casey R, Samana T, Sulicz E, Tso S, et al. Safety analysis of compounded GLP-1 receptor agonists: a pharmacovigilance study using the FDA adverse event reporting system. Expert Opinion on Drug Safety. 2025;25(3):581-588. doi:10.1080/14740338.2025.2499670.
    https://doi.org/10.1080/14740338.2025.2499670 · PubMed 40285721
  4. Alerta conjunto SBEM, SBD e ABESO à população e aos médicos brasileiros
    https://www.endocrino.org.br/noticias/alerta-conjunto-sbem-sbd-e-abeso-a-populacao-e-aos-medicos-brasileiros/

Fontes jornalísticas

Dúvidas dos leitores

Comprei uma versão manipulada mais barata e me sinto bem. Preciso trocar?

Sentir-se bem não garante que o produto tenha a dose correta nem a pureza esperada, porque falhas de concentração e de qualidade nem sempre dão sintoma na hora. O que eu oriento é levar o produto e o rótulo a uma consulta, para reavaliarmos com calma a troca por uma opção registrada na Anvisa.

A versão manipulada tem o mesmo princípio ativo do medicamento de marca?

Nem sempre. Muitas versões manipuladas usam formas de sal (como a semaglutida sódica ou a acetato) que não são quimicamente idênticas à forma aprovada, e cujo comportamento no corpo e segurança não foram comprovados. Por isso não dá para assumir que o efeito e o risco sejam os mesmos.

Tem uma dúvida sobre o tema? Escreva abaixo. As perguntas são lidas pelo Dr. Márcio e as selecionadas podem virar tema de novos textos (aparecem aqui sem identificar quem enviou). Não escreva dados pessoais ou de saúde que identifiquem você. Este espaço é educativo e não substitui uma consulta nem gera resposta médica individual.